sábado, 9 de maio de 2020

A disseminação da COVID 19 face à formação socioespacial da cidade de Belém-Pará


A expansão de pandemias constitui um dos grandes perigos que sempre afligiu a Humanidade ao longo da história. Contudo com o advento da denominada globalização perversa essa possibilidade tornou-se real tanto pelo aumento dos movimentos migratórios e das mudanças climáticas como pela difusão da pobreza estrutural que espelha as desigualdades na produção social do espaço urbano no Brasil..

Em Belém, capital do Estado do Pará a atuação do poder público nas áreas periféricas da cidade são plenamente inseridas na lógica descriminatória dos territórios e disseminação da pobreza. Este tipo de “exclusão urbanística” aumentou cada vez mais o número de assentamentos subnormais, paradoxalmente, esta ilegalidade tornou-se funcional e, ao mesmo tempo, disfuncional para os planejadores tecnocratas (MARICATO, 2000). Funcional, através de relações clientelistas e da especulação, que acabam valorizando determinadas frações do espaço; e disfuncional, dependendo do ponto de vista, para a sustentabilidade ambiental e humana.

O impressionante aumento de casos infectados e mortes pela COVID 19 na cidade de Belém durante o mês de abril e início de maio de 2020 (Gráfico 1) pode ser observado pela convergência das áreas com mais casos de infectados com as condições materiais de determinados bairros marginalizados pelas intervenções do poder público ao longo dos anos. A distribuição assimétrica de saneamento básico, especialmente nas redes de esgoto, drenagem de canais, distribuição de água e limpeza urbana, embora essa hipótese ainda não seja unanimidade entre os cientistas, traz o risco de vivenciamos uma contaminação iníqua com proporções desiguais entre os moradores locais.







Gráfico 1: Curva de evolução da COVID 19 em Belém -PA
(Fonte: SESPA- MapBiomas, 2020)


Conforme a Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA) do Estado do Pará, Belém tinha até o dia 05 de maio de 2020 cerca de 2.433 casos confirmados de COVID 19 (Gráfico 1). Esse número representa metade dos casos que foram confirmados para o Estado do Pará inteiro na mesma data, 4 756, por sua vez com cerca de 91% dos leitos de Unidades de Terapia Intensivas ocupadas, a explosão da contaminação no Pará indica um epicentro na capital devido a maior densidade e fluxo demográfico, e pelas dificuldades de manter índices de isolamento social sugeridos devido a questões econômicas e culturais dos moradores locais.

MAPA 1



Contudo ao analisar o MAPA 1 evidencia-se que a distribuição de casos confirmados entre os bairros da capital apresentam maiores números absolutos em 4 bairros periféricos como o da Pedreira (227), do Marco (211), do Guamá (200) e da Marambaia (180), sendo estes os mais impactados pela disseminação da doença. Seguem Umarizal (151), único bairro elitizado, Jurunas (146), Sacramenta (129) e Parque Verde (112) Telegrafo (97) e Cremação (96) (MAPA 1), em sua maioria são áreas consideradas populares, com indicadores socioeconômicos baixos.

É possível inferir a maior vulnerabilidade dos bairros populares a partir de uma análise cruzada dos fluxos do transporte coletivo, com a necessidade de renda, além de maior concentração de moradores por residências. Por outro lado, os números divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Pará sobre a taxa de isolamento social em Belém apontam as menores taxas nos bairros de Águas Negras (45%), Campina (45,3%) e Jurunas (48,6%).

No entanto, a expansão diária da contaminação da doença nos bairros mais pobres e menos equipados em termos de saneamento básico de Belém, assim como de outras metrópoles do Pais, chama atenção para o risco iminente de uma tragédia sem precedentes, evidenciando as assimetrias sociais reproduzidas no espaço urbano como um elemento facilitador da contaminação do vírus ente os moradores da cidade (Bombardi & Nepomuceno, 2020).

MAPA 2



No MAPA 2 em uma pesquisa do IBGE (2000) sobre a distribuição da rede esgoto em domicílios particulares de Belém, fica claro que a proporção de áreas residenciais sem rede esgoto prevalece no cenário da cidade, ou seja, a população que não é atendida por serviço de coleta de esgoto prevalece especialmente nos bairros mais marginalizados. Em outras palavras, grande parte dos moradores de Belém convivem com a exposição de urina e fezes, algo que é agravado pelas constantes chuvas e alagamentos devido despejo de lixo em canais da cidade.

Em um estudo publicado em 2019 pelo Instituto Trata Brasil apresenta que em Belém apenas 12,62% dos moradores têm acesso à coleta de esgoto; somente 2,67% do esgoto gerado é tratado, trata-se de um dos piores índices entre as capitais de Estado. O estudo considera os números oficiais do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico – do Ministério das Cidades – ano base 2016. Em relação aos serviços de água tratada a cidade cobre 70,41% dos habitantes, porém com 46,77% de perdas de água, Belém está entre as piores do ranking nesse quesito.

O fato que existem estudos recentes publicados como o artigo “First confirmed detection of SARS-CoV-2 in untreated wastewater in Australia: A proof of concept for the wastewater surveillance of COVID-19 in the community” da revista Science of the Total Envirinoment cujo a tese afirma que a eliminação do Covid-19 nas fezes se dá não só em pacientes efetivamente infectados, como também por pessoas assintomáticas (Bombardi & Nepomuceno, 2020)

Diante de um cenário no qual a ineficiência da rede de esgoto, da coleta de lixo e da distribuição de água tratada tornam-se um potencial multiplicador do coronavirus, logo os bairros periféricos das cidades que são historicamente excluídos pelo padrão desigual de intervenção urbanística podem estar diante de um desafio ainda maior para o poder público e população local, que vão além do aparelhamento das Unidades de Saúde do município e de medidas restritivas de isolamento social.

Portanto, o que explica como Belém chegou a uma taxa de contaminação tão acentuada  em pouco tempo em comparação a outras metrópoles brasileiras mais populosas, com taxas menores de isolamento social, com fluxo maior de pessoas e com problemas análogos no sistema de saúde do município está possivelmente vinculado a maior precariedade do saneamento básico da capital paraense. Desse modo, o nível de descontrole do avanço da Covid 19 devem apresentar no Brasil números que ultrapassem os apresentados em países como a Espanha, Itália e até mesmo os Estados Unidos pelo fator desigualdade social, transformado-a em uma pandemia que não atingirá democraticamente a todos.




Nenhum comentário:

Postar um comentário