sexta-feira, 28 de maio de 2021

Espaço e Tempo nas cidades Ribeirinhas da Amazônia: São Sebastião da Boa Vista-PA


O objeto de estudo desta pesquisa é contribuir para apreensão das espacialidades e temporalidades inerentes ao espaço urbano amazônico, através de uma releitura do urbano/rural pela ótica da reprodução da vida humana nos atos do cotidiano regional. Nestes termos, as cidades da Amazônia são produto de um processo social diversificado que baseia-se de um lado, nas possibilidades de articulação entre o uso e a abstração do espaço e, de outro, pelos interesses que orientam as ações dos atores sociais locais.

Neste ponto, é importante atentar para as possibilidades analíticas da região amazonica, onde as singularidades são tanto no espaço como no tempo mais concretas do que em outras regiões do Brasil . O exemplo de São Sebastião da Boa Vista mostra que o crescimento da cidade incorpora a forma urbana usos e conteúdos sociais especificos presentes na reprodução da vida rural, mais precisamente dos costumes e valores extrativistas.


O município de São Sebastião da Boa Vista está localizado no sul da Ilha de Marajó, mais precisamente na zona da mata, onde abrange uma área de 1.329 Km², que corresponde apenas a 2,6% da área total da ilha, que é de 49.606 Km². Limita-se ao norte com os municípios de Anajás e Breves, ao sul com o rio Pará, a Leste com Muaná e a oeste com o município de Curralinho (CRUZ, 1987).

As feições morfológicas encontradas nesse município são suaves, com destaque para terrenos de cotas levemente elevadas, denominados de terra firme, e por áreas sujeitas a inundações permanentes ou periódicas, que constituem os igapós e as várzeas, respectivamente. Estas características derivam do fato deste município está localizado na foz do rio Amazonas, onde predomina uma extensa planície de inundação, drenada por rios subordinados às marés, que confere ao relevo da Ilha de Marajó um aspecto extremamente plano, não atingindo cotas superiores a 20 metros (IDESP, 1974; LEITE; COELHO, 2002).

A hidrografia de São Sebastião da Boa Vista apresenta as características da parte ocidental desta Ilha, onde predominam as águas vindas do rio Amazonas e uma grande variedade de rios, lagos e igarapés. Entretanto, os rios desse município, assim como os demais encontrados nessa ilha, não são alimentos por nascentes perenes ao longo do ano (TEIXEIRA, J., 1953). Devido à escassez de chuvas no verão, essas nascentes secam, comprometendo inteiramente a navegabilidade no alto curso desses rios.

Por está localizado na zona de mata da Ilha de Marajó, a composição florística encontrada em São Sebastião da Boa Vista, não se caracteriza pela dominância de campos naturais, como ocorre na parta lesta desta Ilha (IDESP, 1974). O que predomina nesse município são matas formadas por árvores imensas, geralmente entrelaçadas por cipós e parasitas que cobrem e tornam mais densa a floresta (BRASIL, 1999). Dentre as espécies que mais se destacam pelo porte e pela importância econômica, estão o mangue-vermelho (Ryzophora mangle L.), a samaúma, a pracuúba, a seringueira, a andiroba, a ucuúba e o açaizeiro.

A ocupação do município, bem como de toda a zona da mata da Ilha de Marajó, sempre esteve muito dependente das atividades extrativas. Por conta deste fato, o padrão de povoamento desta zona caracterizou-se pela distribuição da maioria da população por pequenos povoados ou “colocações”, localizados geralmente na confluência de rios e igarapés, de onde, na época das safras, sobretudo da borracha, dispersavam-se pela floresta (BRASIL, 1999). Este padrão, apesar de a atividade extrativa ter se voltando para a exploração de outros produtos, como o açaí, parece não apresentar mudanças substanciais.

No município em apreço, por exemplo, a maioria da população, estimada recentemente em torno de 17.664 habitantes (IBGE, 2000), aloca-se no meio rural. De acordo com esses dados, aproximadamente 60% desse contingente, algo em torno de 10.484 habitantes, reside ainda em pequenos povoados, como Santo Antônio e Cocal, ou habita nas margens de rios e igarapés, fartamente encontrados, como já destacado anteriormente. O restante da população, 7.180 habitantes, mora no meio urbano que, neste caso, resumi-se ao distrito sede – a cidade de Boa Vista. Isto posto, permite afirmar que esse município é rural, não obstante o já significativo contingente de população urbana.

Deve-se destacar, todavia, que muitas famílias residentes na cidade de Boa Vista deslocam-se sazonalmente para o interior, especialmente para atuar na extração de açaí e/ou de palmito. Isto ocorre anualmente, sobretudo com famílias egressas da localidade Pau-de-rosa, as quais, no inverno, voltam ao seu lugar de origem para trabalhar na extração desses recursos, aproveitando a época de cheia para extrair e escoar a produção. Assim, observa-se que população urbana boavistense encontra-se ainda muito ligada ao meio rural, dependendo em muitos casos, das atividades realizadas nesse meio para sobreviver na cidade.

No que se refere à procedência desta população, tudo indica que é constituída majoritariamente por pessoas naturais do próprio município e de seus vizinhos, sobretudo aqueles da zona da Mata. A este respeito, Brasil (1999) afirma que a maioria das pessoas que habita os municípios desta zona, inclusive São Sebastião da Boa Vista, nasceram e sempre moraram nas localidades onde se encontram, sendo que o restante da população é formado de migrantes da própria zona da mata e de apenas uma pequena parcela oriunda de outros municípios, como Abaetetuba. Isto mostra que a mobilidade populacional, na área em que esse município está localizado, apresenta basicamente um caráter local, muito ligada à sazonalidade das atividades extrativas.

As principais vias de circulação encontradas são os rios, dentre os quais se destacam o Pacujutá, o Pracuúba Miri, o Marituba e o Pracuúba. Através deles é que a população local acessa os mercados local e extra-local, tendo a possibilidade de comercializar seus produtos naturais, como o camarão e o açaí, diretamente na cidade. Em contra partida, esses cursos d’água também permitem a mobilidade de marreteiros, oriundos geralmente do meio urbano, que comercializam toda sorte de produtos com a população interiorana. Assim, é através dos rios que ocorre o intercâmbio material entre o rural e o urbano, no qual não só a população urbano/rural, mas os agentes comerciais têm papel fundamental.

Neste aspecto, o cotidiano da cidade de São Sebastião da Boa Vista é reflexo, também, de uma realidade que envolve hábitos e costumes rurais. Por conta disso, a experiência adquirida é caracterizada por um conjunto de componentes (materiais, sociais, intelectuais e simbólicos) que formam sistemas de relações mais ou menos coerentes entres si. Ela é vivida individualmente e coletivamente no espaço urbano, sendo transmitida e inventada, por meio da criatividade e do uso, atitudes e idéias.

Desta maneira, as famílias oriundas das localidades rurais não possuem uma identidade urbana acabada, embora estejam inseridos no ritmo da cidade, disseminando hábitos e comportamentos que não segue a mesma lógica da temporalidade urbana. Deste modo, através das relações entre amigos e familiares, existe uma espécie de combinação que preserva ou recria as relações rurais, inclusive com o espaço. Assim, o homem consegue graças a sua “arte de fazer, adaptar-se aos parâmetros espaciais elaborados pela razão moderna, que visa ao controle da sociedade (CERTEAU, 1996).

Com isto, a temporalidade de quem habita as margens de rios e igarapés criam no urbano práticas sócio-espaciais menos individualistas e menos competitivas. Produto das relações sociais, sobretudo, as de parentesco e de vizinhança, cria-se estratégias diferenciadas de sobrevivência no espaço urbano (SOUZA, 2003). Desta forma, no cotidiano da cidade existem elementos que são resquícios de um modo de vida rural, bem como, de sua adaptação ao urbano.

Nesse sentido, a Amazônia é reconhecida por suas diversas singularidades sócio-espaciais, o que dificulta o esboço de uma particularidade regional. No entanto, o homem amazônico é muito ligado à natureza em que vive, designadamente como os rios e as matas, isto porque estes são a sua fonte de alimentos, de lazer, de trabalho e de deslocamento.

A tipologia das moradias, por sua vez, reproduz as casas do interior do Estado, dentre outros motivos, pela facilidade de autoconstrução e pelo solo de várzea. Contudo, existe uma identidade afetiva, psicológica entre o morador e sua casa que transpõe elementos e formas que existiam anteriormente, mantendo uma representação da sua experiência de vida (COSTA, 2002). Além disso, a casa representa, para o ocupante, uma propriedade a ser mantida, uma estratégia de sobrevivência na cidade e, como tal, é uma referência de estabilidade e de liberdade individual e familiar.

Há, nestes termos, uma disseminação na cidade de São sebastião da Boa Vista não somente das características materiais das casas, mas do próprio conjunto de relações sociais estabelecidas em torno da casa. Dados recolhidos na própria área (SOUZA & Marinho, 2007), indicam que ao longo do processo de ocupação desta, é comum encontrar ocupantes membros da mesma família, vizinhos e/ou conhecidos. Apesar disto não permitir afirmar que haja um caráter familiar na ocupação, existem laços de afetividade, de confiança e de solidariedade.

Também contribui, embora indiretamente, as dificuldades encontradas pelos ocupantes para se inserirem no mercado de emprego formal local. A solidariedade parece ser, portanto, um mecanismo de sobrevivência acionado para superar as adversidades cotidianas.

De acordo com Menezes et al. (2000), entre estas alternativas existentes, as culturas de “quintais” representam bem esta identidade. Trata-se de plantações de hortaliças, fruteiras e medicinais nos quintais dos terrenos. O fato é que a partir de uma experiência adquirida, as famílias instituem uma forma de agricultura familiar urbana para o consumo próprio.

Em tese, o ocupante, à medida que vai edificando sua moradia constrói uma série de vivências próprias. Costa (2002) explica que o morador articula o seu mundo privado, manifestado nas relações pessoais, com o seu mundo coletivo (público), expressado no processo de produção do seu espaço. Logo, é na dialética entre concebido e o vivido, entre as virtualidades e o uso que se define temporalidades diferenciadas dentro da cidade.

Giddens (1989) reforça essa idéia, quando indica que as estruturas podem não serem criadas pela ação direta do homem, mas são constantemente (re) produzidas pelas práticas cotidianas. A partir desse raciocínio, é possível afirmar que a constituição de uma forma espacial menos abstrata, pode se configurar em um outro processo de produção social do espaço urbano.

Se as condições de existência são cada vez mais invadidas pela estrutura abstrata (mercadológica), empobrecendo o cotidiano à medida que transforma as relações sociais em relações burocráticas. De outro lado, há resquícios de clandestinidade da ação social, no qual submerge valores desatrelados, cuja persistência é produto das singularidades contextuais.

Tal é o caso da cidade de São Sebastião da Boa Vista, que apesar do invólucro da forma urbana, traz em seu cotidiano a permanência de práticas sócio-espaciais de uma experiência adquirida em localidades não capitalistas. Deste modo, o espaço foi alicerçado também por meio de uma temporalidade diversificada, porém, lenta em relação ao ritmo das virtualidades da cidade.

Há nestes termos, uma disseminação no espaço urbano não somente de experiências típicas de uma particularidade regional, mas, sobretudo, de uma conformação de uma singularidade local através do modo que os ocupantes convivem hodiernamente. Neste sentido, as diversas expressões de resistências, cristalizadas no cotidiano da cidade, resumem a pluralidade de sujeitos e ações que definem as realidades amazônicas.